Há muitas gerações, Winterbourne Stoke tem sido o lar e o pilar de sustentação da família Callaghan. O feudo é próximo à Chitterne e possui um rio correndo por suas terras, tendo como consequência abundância em suas colheitas e a manutenção da paz de seus vassalos. Toda essa prosperidade nunca foi colocada apenas por conta do esforço dos trabalhos das pessoas, mas também na fé pagã que eles são muito orgulhosos por possuírem.
Mesmo após tantas invasões nas terras britânicas, os Callaghan têm os ritos e a tradição pagã correndo em suas veias e em seus espíritos. Isso resulta em terras fartas e uma história de batalhas gloriosas.
Os homens dessa família nunca foram adeptos à omissão. Não à toa, eles possuem o Falcão num céu noturno como seu simbolo. Sendo o
príncipe das aves, o Falcão é a vitória, o alvorecer, a conquista. Além de ser uma ave de rapina inteligente o suficiente para saber discernir o certo do errado; a verdade da mentira; mas também o momento de mentir para revelar a verdade.
Os Cavaleiros dessa família fizeram parte da história de lutas e traições. Mesmo quando a estabilidade era apenas uma utopia, eles lutavam pelo que acreditavam ser seu
povo, suas
tradições, seu
verdadeiro rei.
Lutaram por Glória.
E morreram por ela também.
Parte 1 - Os Feitos de Brandon Callaghan, o Ceifador
Hero Memories
(Sugestão de Musica)
Tudo o que Brandon Callaghan desejava no auge de sua juventude era honrar o nome de seu pai. Ser Cavaleiro e herdeiro da família era uma responsabilidade imensa para o filho mais velho de cinco irmãos - Hermind, Astrid, Brigitt e Lenora. Além de cuidar do legado de sua família, também precisava cuidar dos casamentos das três irmãs e ser o pai que Hermind precisou quando Ewan Callaghan morreu.
Quando tornou-se Cavaleiros aos 21 anos, Brandon não encontrou muitas aventuras. Os anos de paz estavam durando mais do que o imaginado, mas ele não deixou de treinar ou se educar - sempre aprendeu que um Cavaleiro também precisava ter um cérebro tão afiado quanto a lâmina de sua espada.
Aos 23 anos conheceu sua noiva, Eire Breathnach, uma jovem de apenas 16 anos. Os Breathnach não eram uma família muito grande, mas havia algo naqueles olhos verdes de Eire que simplesmente foi impossível de ser ignorado por Brandon. Ele não se importava de crescer com ela e criarem um legado juntos.
Paixões também sempre foram um ponto marcante daquela família.
Eire e Brandon tiveram um ano e meio inteiro de paz, período que tiveram os dois primeiros filhos: Gregory, o primogênito e Jennifer. Quando Jennifer tinha duas semanas de vida e Gregory mal tinha completado 1 ano, Brandon foi chamado para servir ao seu suserano rei, Constantino. Era o ano de 439 a.C, período conhecido pela Batalha de Carlion.
Jamais esqueceria o que sentiu em sua primeira grande batalha. Sentiu a morte próxima muitas vezes, porém, foi ele quem ceifou duas vidas. Um número bem diminuto diante daquela batalha contra os saxões. Brandon nunca soube o nome daqueles homens, mas foram os únicos rostos que ele lembrou para sempre, como a primeira vez em que vestiu a capa da morte e usou sua arma.
O período que se seguiu o deixou mais próximo de Constantino a ponto de constantemente ser chamado para ter com o mesmo. Seu terceiro filho, Cedric, havia nascido e Brandon foi chamado para receber as felicitações e festejar com o rei. Havia, claro, algo mais além disso. O que ele não imaginava - tampouco Constantino - era o plano de assassinato que ocorreria ali. Brandon estava na sala do trono, porém foi incapaz de defender seu senhor.
As suspeitas da traição recaíam sobre os Cavaleiros Silchester, mas havia muito pouco ou quase nada que os Callaghan pudessem fazer naquele momento. Hermind, seu irmão mais novo que também estava presente na cena, começou a alimentar ódio que rapidamente ficou incrustado na família. Infelizmente, foi algo que nunca foi provado.
E os anos trataram de apagar qualquer vestigio.
Dois anos após a morte de Constantino, um novo rei foi escolhido pelo Alto Conselho. Era Constant, o primogênito de Constantino. O garoto era muito jovem e estudioso, porém, não tinha aptidão para ser rei. No fim das contas, era o Duque Vortigern quem governava, pois sempre era procurado pelo ingênuo monarca e suas ideias pareciam sempre as mais agradáveis e perfeitas.
Durante esse período, Brandon serviu guarnição do feudo. Foi uma época que seu lar precisava de sua presença. Resistiram bravamente aos saqueadores e conseguiram manter, com a graça dos deuses, seus feudo sob a bandeira do Falcão. Ainda mais agora que precisava proteger seu quarto filho, Denzel.
Em 443, Brandon foi surpreendido pela notícia da morte de Constant.Diferente da morte de Constantino, a qual ele presenciou, Constant não foi tão impactante. Era como se já fosse esperado, diante de tamanha instabilidade politica e pouca malícia do jovem rei. Após sua morte, muito foi debatido até que chegou-se à conclusão que o nome mais indicado para reinar era o de seu tio, Vortigern. Os irmãos mais novos de Constant foram retirados da Bretanha em segredo.
Os dois primeiros anos de reinado de Vortigern foram marcados pela invasão dos Pictos. Traindo a aliança, os pictos iniciaram uma massiva invasão pelo norte. Brandon atendeu ao chamado do rei e lutou bravamente para expulsar esses imundos de suas terras, ganhando mais renome e glória para sua Casa.
Não obstante esses conflitos, a Bretanha também se viu diante a uma Grande Batalha que estava prestes a eclodir em 446, a Batalha de Lincoln. Esse foi o momento de maior destaque para Brandon. O nome Ceifador começou a ser cantado pelos bardos após uma sangrenta batalha. Ele não soube quantos homens matou, mas quando a última espada caiu, era ele quem ainda se mantinha de pé. Não havia um pedaço de pano que não estivesse manchado com o sangue de seus inimigos.
Uma coisa ficou certa em sua mente e no legado da família após a batalha: nunca confie num picto, pois apenas um tolo o faria.
Nos anos seguintes, nada de significativo aconteceu nos campos de batalha. Já no dia-a-dia, parecia mais comum ver saxões em terras bretanhas e isso não agradava aos Callaghan. Já tinham passado por muitas traições e invasões para achar que aquela êxodo saxão por Logres fosse visto com bons olhos. Pouco a pouco, a família Callaghan foi conhecida como dissidente.
Em 450, essa aliança com os saxões chegou ao seu auge com o casamento de Vortigern com Rowena, a bela filha de Hengest. Indisposto a iniciar uma guerra interna ou criar rusgas com seu rei, Brandon e sua família atendeu ao chamado do rei para o casamento. Não concordavam, mas foram presentes. Incapaz de esconder seu incômodo, não foi com surpresa que Brandon recebeu o chamado para servir a mais uma batalha.
Sabia que era uma forma do rei tentar eliminar seus opositores, afinal, o casamento não era bem visto por todos. Brandon sabia que podia perecer diante daquela batalha, mas novamente vestiu a capa da morte e brandiu sua espada uma vez mais. Para desagrado de Vortigern, Brandon e outros Cavaleiros retornaram vitorioso da Batalha de Challons. Mais do que isso, voltaram com muita glória.
Foram recepcionados com palavras doces, mas um coração amargo.
Os anos vindouros trouxeram uma incômoda calmaria. Brandon sentia que os ventos mudavam, que uma grande alteração estava por vir e que, talvez, sua espada estivesse pesada demais para ser carregada. Não era mais o mesmo jovem que antes, para a preocupação de sua esposa e filhos. Gostaria de ensinar mais a Gregory, Cedric e Denzel, assim como queria ver Jennifer crescer e se transformar numa mulher tão linda quanto a mãe. Contudo, uma angustia crescia em seu peito.
Não demoraria para que as asas escuras dos corvos trouxessem mais um chamado.
Chegou a ver a queda de Roma com surpresa, mas em 457 que o chamado de Vortigern realmente o incomodou. Nos últimos anos, Brandon esteve ligado a muitas conversas com outros Cavaleiros e acordos para melhorias das casas. Ainda não concordava com a presença dos saxões e sua influência incomodava ao rei.
O que mais feriu o chamado era que deveria lutar contra seus compatriotas. Eram bretões rebeldes que tiveram mais coragem do que ele mesmo, pois estavam indignados com o reinado de Vortigern. Ele mesmo estava, mas não foi capaz de erguer um levante. Eire tentou impedir que ele fosse, estava cansada de ver seu marido se sacrificando por aquele pestilento rei.
Porém, Brandon tinha um juramento a cumprir e, não poderia deixar de atender ao chamado, por pior que fosse.
Essa foi a última vez que os Callaghan viram Brandon vivo. Quando a batalha acabou, o corpo dele foi recebido com bastante sofrimento. Hermind mal conseguia se sustentar de pé diante da morte de seu adorado irmão, principalmente por trazer uma verdade que seria como um mote de vingança para todos eles.
Brandon foi morto por saxões.
Ao se negar a erguer a espada contra seus compatriotas, os cavaleiros saxões o mataram sem dó, nem piedade. Porém, o rei se dispunha a fazer um enterro digno e à altura do Cavaleiro que ele era.
As chamas que queimaram seu cadáver só não foram mais ferozes do que o ódio que foi semeando naquela família.
Nenhum Callaghan teria misericórdia com um saxão.
Parte 2: O amor de Cedric Callaghan e Enid de Avalon
Cedric tinha 17 anos quando enterrou aquele por quem tinha total admiração e orgulho de ascendência. Lembrava-se como toda sua vida mudou do dia para noite e os dias de risos e alegria foram substituídos por um sentimento de...ódio, impunidade. A semente da vingança havia sido plantada em seu lar e o ódio pelos saxões praticamente os cegava.
Seus treinos ficaram um pouco mais intensos e seu dom para a música foi deixado de lado. Ele não era mais apenas o 3º filho de Brandon Callaghan, ele era o 2º na sucessão, visto que Gregory ainda não estava casado, nem tinha filhos - legítimos, pelo menos.
Sendo obrigado a ter um toque de realidade e vendo a mãe se fechar em amargura, Cedric amadureceu e prestes a completar 21 anos, ele e Gregory foram consagrados Cavaleiros, filhos do Grande Ewan “O Ceifador” Callaghan. Serviram juntos com honra e prestígio até 463.
Durante as primeiras horas daquele fatídico dia, Cedric teve sua atenção tomada por uma misteriosa mulher cujo rosto não revelava por estar em volta de uma
bruma. Estava em Winterbourne Stoke enquanto seu irmão estava prestes a partir para um chamado do rei. A mulher tinha um alerta para que eles não fossem. Dizia que era livre arbítrio dele, mas aquela noite traria consequências.
Gregory não acreditou no que Cedric disse e foi sozinho, deixando sua esposa para trás. Essa noite de 463 foi conhecida como a Grande Traições dos Saxões, ou Noite das Facas Longas. Os cavaleiros foram mortos e, de repente, Cedric não era mais apenas o segundo filho.
Ele assumia a importância daquela casa.
E deveria agradecer a sua vida àquela mulher das brumas cuja voz ele jamais esqueceria.
Por conta de todo um protocolo, ele foi obrigado a se casar com sua cunhada viúva e que não tivera filhos de seu irmão - após confirmarem que ela não carregava um herdeiro de Gregory, ela casou-se com Cedric. Ela não era uma mulher jovem, tampouco bonita. Mas era gentil e uma esposa servil. Os dois pouco se relacionavam porque, àquela altura, Cedric não conseguia sentir desejo por nenhuma outra que não fosse o mistério que encontrou naquela manhã.
Dez meses após seu casamento, nasceu Gilbert Callaghan, o novo herdeiro e salvação da família. A primeira esposa de Cedric não teve a oportunidade de ver o filho, pois morreu devido a complicações no parto. O nascimento de Gilbert trouxe certo alento e conforto para a família, pois diante de tantas perdas, uma nova vida sempre parecia trazer um sopro de esperança. Foi graças ao neto que Eire começou a retomar o controle de suas emoções e assumiu o posto não apenas de “avó-mãe” do menino, mas também de administradora do feudo enquanto o filho estivesse fora.
Cedric se esforçava ao máximo para ser o herdeiro esperado, mas havia algo dentro de si que clamava por mais. Não foi um pai bastante ausente nos primeiros anos de vida de Gilbert. O descontentamento com o reinado de Vortigern apenas crescia, assim como a necessidade de clamar por justiça - em forma de vingança - pelas mortes de seus entes queridos. Um nome começou a se destacar dentre todos: Aurelius Ambrosius, filho do Rei Constantino, o monarca o qual Ewan Callaghan fora mais fiel. O legítimo herdeiro havia retornado a fim de retomar o que era seu por direito. Por toda Bretanha, os nobres se uniam a ele e os Callaghan não foram diferentes.
O Cerco de Callion mostrou a força que Ambrosius possuía. Cedric foi vitorioso nessa batalha e o retorno à convivência com outros Cavaleiros o aproximou novamente de sua religião. A voz daquela mulher ainda estava em sua mente. Fazia tempo, parecia-se mais com uma ilusão do que com uma memória, mas ele sabia que era sim real. Foi graças a ela que não tinha morrido na noite da traição.
Foi ao retomar a religião que ele participou do Ritual Sagrado de Beltane, o ritual da fertilidade. O dia onde as misteriosas sacerdotisas de Avalon permitem que seus corpos sejam tocados. Os rostos nunca eram revelados, mas mesmo diante do torpor do momento, assim que ouviu a voz da sacerdotisa que se deitou com ele, Cedric ultrapassou os limites da lei e retirou a máscara da mulher. Ela fez o mesmo e reconheceu o, então, escudeiro de seus sonhos. O que tinha avisado para evitar a ida até o chamado do rei. Naquela noite, os sonhos de Enid.
Tomados pela paixão, eles tiveram apenas uma noite para decidir todo um plano que mudaria completamente a vida deles. Enid esperou por aquilo a vida inteira e sabia que não conseguiria ser a mesma depois de conhecer Cedric. Ela aceitou abandonar tudo o que tinha e tudo o que era para segui-lo.
Permaneceu em Avalon apenas tempo o suficiente para que houvesse a certeza de que não estava grávida. Ela mentiu para suas irmãs porque não aceitou a possibilidade de abandonar seu bebê, no caso de ser uma menina.
Confiando que Cedric manteria sua palavra, ela partiu de Avalon. Houve uma certa tensão, pois nesse meio tempo, a Bretanha continuava em seu sangrento conflito interno que resultou na morte de Vortigern e o início do reinado de Ambrosius, o momento em que o título Pendragon começou a ganhar nome.
Cedric participou dessas batalhas, fazia seu nome e honrava seus parentes mortos. Agora que sua missão parecia cumprida, ele seguiria o que desejava: Enid de Avalon.
O casamento deles não foi visto com bons olhos por Eire. A mãe de Cedric desejava que o filho tivesse um casamento mais virtuoso, com uma mulher de nome. Ainda que Enid fosse de Avalon, não trazia terra, posses, nome. Apenas sua sabedoria e suas
mãos de fada. Verdade fosse dita, graças a ela o feudo viveu um grande período com baixa taxa de mortalidade. Ela era muito boa com curanderismo e herborismo, seus ensinamentos foram passados.
Além disso, Enid também foi uma boa madrasta para Gilbert. O garoto tinha quase dois anos quando conheceu a nova esposa de seu pai, mas ela foi sua referência de mãe. De muitos modos, Enid era boa e menos de nove meses depois, ela teve a primeira filha de seu casamento: Meredith.
Os anos de paz trouxeram tranquilidade e prosperidade para o feudo. Por outro lado, Enid passava por um drama pessoal. Ao longo de oito anos, ela perdeu sete bebês. Apesar de Gilbert e Meredith serem boas crianças e carregarem o legado da família, ela ainda desejava mais filhos para Cedric. Uma missão que parecia impossível.
Carry Me
(Sugestão de Musica)
Quando os anos sangrentos retornaram, Enid começou a ter sonhos estranhos. Viu Cedric morrendo de várias formas, mas, de algum modo, ele ainda retornava para casa. Cada partida era um tormento, ainda mais agora que descobriu que estava grávida novamente. Estava nas últimas semanas de gestação quando sentiu sua alma sendo partida em duas.
Sua partida de Avalon parecia cobrar um preço muito caro.
A notícia da morte de Cedric ainda não tinha chegado, mas ela sabia que ele tinha partido. Enid foi acometida por uma súbita e letal febre. Nada parecia capaz de expurgar aquele mal que também afetava ao bebê. Forçada a um parto prematuro, Elliot nasceu e Enid só conseguiu ver o rosto do filho uma vez antes de falecer. Não houve tempo de se despedir de Gilbert ou Meredith e, apesar do coração materno sofrer, seu espírito teve paz.
Não havia como viver ciente de que Cedric não estaria mais ali.
Os dois foram velados juntos e isso foi um marco significativo na vida de Gilbert e Meredith. Mesmo que tivessem todo o apoio de sua avó - que era uma mãe - e de outros parentes, eles sentiam o peso daquela perda. Os dois sabiam que, na verdade, só tinham um ao outro e que precisavam cuidar de Elliot também.
A Casa Callaghan tinha Gilbert como herdeiro e ele ficaria sob a tutela do tio Denzel enquanto Meredith receberia os ensinamentos de sua avó Eire e de sua tia Jennifer.